
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE DESPORTOS

Fim de gestão, início de um legado: a Portuguesa recupera sua dignidade e volta a sonhar grande
31 de dez de 2025
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Seis anos de reconstrução devolvem à Portuguesa estabilidade, respeito e perspectiva de futuro
Por Everton Calicio

A gestão de Antonio Carlos Castanheira e Denise Boni de Mattos à frente da Associação Portuguesa de Desportos, iniciada em 2020 e que chega ao fim agora em dezembro de 2025, deixa um legado estruturante na história da instituição. Em um período que começou sob forte desconfiança externa, fragilidade interna e risco real de colapso, a administração transformou incertezas em reconstrução, recolocando a Lusa nos trilhos da credibilidade, da modernização e do protagonismo esportivo e social.
O fechamento desse ciclo é acompanhado de emoção, reconhecimento institucional e da retomada do orgulho de uma comunidade que voltou a vibrar pela Rubro-Verde.
Reconstrução estrutural e reposicionamento da marca

Ao assumir o clube, Castanheira e Denise encontraram uma Portuguesa desacreditada no mercado, distante do torcedor e ocupando a 213ª colocação no ranking nacional, o pior índice de sua história. A resposta veio com um plano ousado de reestruturação, baseado na profissionalização dos departamentos, na separação administrativa e financeira entre futebol e clube social e na recuperação da dignidade dos funcionários.
Esse processo envolveu a reorganização da gestão, a criação de novos fluxos administrativos e o reestabelecimento da governança interna, devolvendo protagonismo ao Conselho de Orientação e Fiscalização (COF), ao Conselho Deliberativo e à Assembleia Geral. A institucionalidade voltou a funcionar plenamente, garantindo transparência, equilíbrio e segurança nas decisões estratégicas.
Entre os avanços mais vis íveis estão a aquisição de um novo ônibus, a reforma dos vestiários, a revitalização do estádio e a recuperação do Centro de Treinamento, que se encontrava abandonado e vulnerável a furtos e depredações. Diversas obras e revitalizações foram realizadas nas áreas do clube e do estádio, incluindo a pintura do Canindé, contribuindo para a recuperação do patrimônio e da imagem institucional.
No relacionamento com o torcedor, a gestão promoveu a reativação do programa Sócio-Torcedor, que havia sido descontinuado, agora com um modelo modernizado, mais acessível e alinhado às práticas atuais do futebol, fortalecendo o vínculo da comunidade rubro-verde com o clube e ampliando as fontes recorrentes de receita.
No campo da marca, a administração lançou a marca própria 1920, reafirmando identidade e tradição, firmou contrato de fornecimento de material esportivo com a Joma, uma gigante internacional, e criou a Somos Lusa Store, loja oficial da Portuguesa e ponto de venda de produtos oficiais do clube, fortalecendo a presença comercial da marca e oferecendo ao torcedor um canal institucionalizado de consumo e pertencimento.
Paralelamente, houve avanços significativos no Departamento de Comunicação do Clube, com a modernização dos canais oficiais e o reposicionamento da imagem institucional. Entre as principais ações estão a criação de novas redes sociais, com destaque para o perfil oficial no Instagram, o lançamento da Lusa TV, canal oficial de vídeos do clube, a reestruturação da assessoria de imprensa, a implementação de um novo site oficial, mais moderno e funcional, além da implantação de um programa de relacionamento com outras entidades esportivas, voltado ao estreitamento do diálogo e à aproximação institucional com clubes, federações e demais organizações do esporte.
Segurança jurídica, recuperação patrimonial e resgate da memória rubro-verde
A área jurídica foi um dos pilares da reconstrução. A gestão promoveu ações estruturantes que deram fôlego financeiro, encerraram passivos históricos e devolveram segurança institucional ao clube.
Destacam-se:
PEPT (Programa Especial de Pagamento Trabalhista): concentração dos processos trabalhistas em São Paulo, com a realização de 202 acordos, todos integralmente quitados;
RCE (Regime Centralizado de Execuções): centralização e organização dos processos cíveis, trazendo previsibilidade e controle;
Encerramento de leilões e bloqueios judiciais por meio de acordos;
Recuperação de taças históricas que haviam sido levadas a leilão, resgatando a memória rubro-verde;
Encerramento de ocupações irregulares, como a chamada “feirinha da madrugada”, devolvendo ao clube o controle de seu patrimônio.
Outro marco emblemático foi a mudança do nome da Rua Azurita para Rua Associação Portuguesa de Desportos, conquista viabilizada com apoio da Prefeitura e de conselheiros, consolidando a identidade da Lusa no território que abriga sua história.
Retomada do protagonismo social e comunitário
A gestão ampliou a presença institucional da Portuguesa em eventos e espaços de representação, refletindo o reconhecimento do processo de reconstrução por parte da comunidade luso-brasileira e de diferentes setores da sociedade.
No âmbito social, o Departamento de Responsabilidade Social, liderado por Camila Castanheira, promoveu ações que aproximaram o clube de seu entorno, como a realização da Taça das Favelas no Canindé, campanhas de prevenção ao câncer de mama, ações solidárias às vítimas das enchentes no Sul do Brasil e festas de Dia das Crianças e Natal para comunidades vizinhas.
A retomada da festa junina, a reativação da Adega da Lusa e o resgate de eventos históricos devolveram ao clube social seu papel cultural e comunitário.
Reconstrução esportiva: competitividade, números e evolução

Entre 2020 e 2024, a Portuguesa viveu um processo consistente de reconstrução esportiva, marcado pela reorganização do futebol profissional, pelo resgate das categorias de base — antes terceirizadas — e pela retomada da competitividade em âmbito estadual e nacional.
No período, o clube disputou 167 partidas oficiais, com 80 vitórias, 48 empates e 39 derrotas, alcançando 47,9% de aproveitamento em vitórias. O ponto alto foi o título do Campeonato Paulista da Série A2 em 2022, que marcou o retorno à elite estadual após sete anos. Em 2020, mesmo em plena pandemia, a equipe foi campeã da Copa Paulista, reforçando a trajetória de recuperação.
A maior conquista: a SAF e o tripé do futuro da Portuguesa

O capítulo mais emblemático da gestão foi escrito no final de 2024, com a constituição, negociação e implementação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), resultado de anos de organização, credibilidade e diálogo com investidores.
A SAF foi estruturada sobre um tripé estratégico de investimentos:
Arena multiuso e novo clube
Projeto voltado à implantação de uma arena moderna e multiuso, integrada a um novo conceito de clube, ampliando receitas e reposicionando a Portuguesa no cenário esportivo e urbano.
Reestruturação financeira e Recuperação Judicial (RJ)
A gestão apresentou e obteve a aprovação do Plano de Recuperação Judicial, criando condições reais para equalizar as dívidas. A dívida hist órica da Associação Portuguesa de Desportos, estimada em R$ 560 milhões, foi renegociada para cerca de R$ 190 milhões, um dos maiores processos de reestruturação financeira do futebol brasileiro.
Futebol profissional e categorias de base
O contrato da SAF garante investimentos diretos no futebol profissional e na base. Já no primeiro ano, os investidores aportaram valores superiores aos previstos em contrato, demonstrando confiança no projeto e compromisso com o crescimento esportivo.
Organização, credibilidade e estabilidade: o alicerce do legado

Todo o conjunto de avanços alcançados ao longo desses seis anos só foi possível porque a gestão Castanheira–Denise promoveu, de forma consistente, a reorganização jurídica, administrativa e institucional da Portuguesa. A profissionalização dos processos, a previsibilidade na gestão e o respeito às instâncias internas criaram um ambiente seguro e confiável, capaz de atrair investidores, parceiros e patrocinadores, além de restabelecer relações sólidas com instituições públicas.
Esse caminho permitiu o resgate da credibilidade do clube tanto no setor privado quanto junto ao poder público, refletindo-se em novos contratos de patrocínio, apoio institucional e reconhecimento externo. Paralelamente, a administração conseguiu reequilibrar a saúde financeira corrente da Portuguesa, mantendo obrigações em dia, realizando antecipações quando necessárias e garantindo estabilidade mesmo em um dos períodos mais críticos da história recente do país. Durante a pandemia, não houve dispensa de funcionários, e o clube chega ao fim da gestão com suas contas atuais estabilizadas e a folha salarial quitada, inclusive a de janeiro, oferecendo à próxima administração um cenário de organização e planejamento.
Esse conjunto de medidas consolidou a base sobre a qual foi possível estruturar a SAF, negociar dívidas históricas e projetar o futuro da Portuguesa com responsabilidade e ambição.
Um legado que permanece
Ao final da gestão Castanheira–Denise, a Portuguesa é um clube organizado, estabilizado financeiramente, respeitado institucionalmente e com futuro estruturado. A Lusa que ocupava a 213ª colocação nacional encerra o ciclo na 121ª posição, com 92 colocações recuperadas, um recorde no futebol brasileiro no período.

O ciclo se encerra, mas o legado permanece — nas conquistas esportivas, na organização jurídica e administrativa, nos símbolos resgatados, na modernização implementada e na esperança renovada de milhares de torcedores.
A Portuguesa tem, novamente, dignidade, identidade e futuro.






